
“A sesta nas crianças em idade pré-escolar é fundamental para a consolidação da memória, reforçando o que foi aprendido durante o dia”
AASM – American Academy of SLEEP EDUCATION, 2013)
Porque a sesta faz mesmo falta
Dormir a sesta não é um extra nem um mimo. É uma necessidade biológica importante na primeira infância. Mesmo sendo algo que devia fazer parte das rotinas diárias, garantindo um bom desenvolvimento físico, cognitivo e emocional, muitas vezes ainda é vista como um “luxo”.
A verdade é que há várias evidências científicas e recomendações profissionais que mostram que o descanso durante o dia tem um papel essencial. Ajuda a proteger o desenvolvimento infantil, potencia aprendizagens e melhora a regulação emocional (Vasconcelos, Prior et al., 2017).
Nos adultos, a sesta pode servir para compensar uma noite mal dormida, mas nas crianças pequenas é mesmo uma necessidade fisiológica.
Do ponto de vista cognitivo, as sestas ajudam a consolidar o que foi aprendido. As crianças que dormem depois de momentos de aprendizagem têm melhor desempenho em tarefas de memorização do que as que não descansam (Mednick, 2013).
Efeito da sesta no comportamento, emoções e saúde
Especialistas (Spencer et al., 2016) explicam que a falta de repouso depois do almoço costuma aparecer nas crianças através de maior irritabilidade e menor tolerância à frustração. Isto acontece porque a regulação emocional demora mais quando estão cansadas. Ao fim do dia, a coordenação motora também pode ficar mais difícil.

Estes comportamentos são muitas vezes interpretados como problemas de conduta ou sinais de hiperatividade, quando na verdade resultam de fadiga acumulada e menor capacidade de autorregulação. Garantir um período de descanso ajuda a reduzir estes comportamentos e melhora a disponibilidade para aprender e socializar.
Ao nível físico, pesquisas (Miller et al., 2015) relacionam o ciclo de sono infantil, tanto noturno como diurno, com o risco de excesso de peso e alterações metabólicas desde cedo. Ter menos horas de sono também aumenta a probabilidade de mais tarde surgirem problemas cardiovasculares, como pressão arterial elevada. Problemas de ansiedade e depressão precoces também parecem estar associados a um sono infantil de menor qualidade.
Porque o cérebro infantil precisa tanto da sesta
Nos primeiros anos, as crianças enfrentam grandes desafios de aprendizagem. Têm de absorver muita informação numa fase em que o sistema nervoso central ainda está a desenvolver-se. As estruturas cerebrais responsáveis pela memória, raciocínio e autorregulação ainda não funcionam tão bem como as de um adulto, e por isso gastam muita energia.
A sesta é essencial porque é durante o sono, especialmente depois do almoço, que o cérebro infantil consegue recuperar, reorganizar e consolidar o que aprendeu desde que acordou (Conseil Scientifique de l’Éducation Nationale de la République Française, 2022).
Como a necessidade de dormir a sesta evolui
Com o amadurecimento do cérebro, a capacidade de armazenamento da memória melhora e torna-se menos dependente do sono diurno. Isto leva, de forma natural, à transição para um sono exclusivamente noturno (Spencer e Riggins, 2022).
No entanto, tal como acontece com outros marcos de desenvolvimento, não existe uma idade exata para esta mudança acontecer.
Por isso, perceber a importância da sesta e acompanhar a sua evolução ajuda famílias e profissionais da Educação a apoiarem melhor as crianças, tanto na escola como em casa.
Recomendações em Portugal

Em Portugal, Vasconcelos, Prior et al. (2017) e a Associação Portuguesa do Sono (2024) recomendam que a sesta seja promovida e facilitada ao longo dos primeiros anos e até ao final da idade pré escolar. Para estas entidades, a sesta deve ser uma prática comum em todas as instituições, sejam públicas, privadas ou sociais.
Os especialistas consideram a sesta um direito infantil, que deve ser garantido pelas famílias e comunidades educativas, mesmo que isso implique algum esforço organizacional. Retirar a sesta por motivos de gestão, como falta de espaço ou rotinas demasiado rígidas, pode ter custos elevados para a aprendizagem, comportamento e saúde das crianças.
As instituições e as famílias devem criar condições adequadas, com espaços tranquilos e seguros e horários flexíveis que respeitem a individualidade de cada criança. Mesmo quando não adormecem, muitas crianças beneficiam do momento de calma que a sesta proporciona. Por isso, é essencial garantir esse tempo de descanso e a sua vigilância.
Criar condições que ajudam a relaxar
- Um espaço seguro e sossegado
- Luz suave
- Rotinas previsíveis
- Ambiente confortável
Quando a criança parece já não precisar de dormir
Se percebemos que uma criança em idade pré escolar já não precisa de dormir durante o dia, um período curto de repouso, entre vinte e trinta minutos, pode ser suficiente.
E se estivermos num local público seguro e a criança estiver cansada, não há problema em deixá-la dormir, mesmo que não seja o sítio habitual.
No fim, facilitar a sesta é oferecer às crianças um momento de descanso essencial para crescer, aprender e equilibrar corpo e mente. É um pequeno gesto que faz uma diferença enorme no seu desenvolvimento.
Catarina Afonso Santos

